domingo, 26 de abril de 2009

O Condestável em Abrantes


A propósito da canonização de D. Nuno Álvares Pereira fui visitar, hoje, em Abrantes o Outeiro de S. Pedro. "O Outeiro de S. Pedro é um pequeno morro que em 1809 foi transformado em reduto militar. Merece destaque o Monumento em honra de D. Nuno Álvares Pereira, do escultor Lagoa Henriques que aqui se encontra." (inSITU). Ora, nem com a canonização os responsáveis (?) trataram de recuperar o monumento, era uma oportunidade de "limpar" o estado miserável a que este monumento chegou: está vandalizado há muitos e completamente abandonado.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Sempre !

Para onde se liga a dizer que Portugal tem um problema?

"Roubei" este título à Helena Matos, do seu artigo de ontem (23/4/2009) no Público. Tomo a liberdade de o publicar, pela sua qualidade e pela relevância no contexto actual.

O primeiro-ministro acha que magistrados, polícias e jornalistas conspiram para lhe inventar passados
Não quero saber da mãe, do primo, do tio e de quem mais seja das relações do cidadão José Sócrates. Muito menos me interessa saber quais os canais de televisão de que gosta ou não gosta. O que não é suposto é que as entrevistas ao primeiro-
-ministro se tornem numa sessão de psicanálise em torno de um qualquer eu. Quero mesmo acreditar que não foi o primeiro-ministro de Portugal quem esteve na RTP a ser entrevistado mas sim uma outra pessoa que por acaso se chama José Sócrates e que, naquilo que na gíria se chama contar um caso de vida, ali foi dar conta de como pensa enfrentar os conflitos reais ou imaginários que outros mantêm com ele.
Quando os homens da Apollo 13 perceberam que algo estava a correr mal naquela que parecia ser mais uma viagem à Lua, lançaram o célebre: "Okay, Houston, we've had a problem here". E Houston respondeu e naturalmente pediu-lhes que repetissem o que acabavam de dizer. Afinal as más notícias precisam muito mais do que as boas de serem repetidas para que consigamos acreditar naquilo que se acaba de ouvir. A minha grande dúvida ao ver as últimas intervenções de José Sócrates é: a quem avisamos nós que temos um problema?
Portugal não tem propriamente Governo neste momento. Temos sim uma estrutura que vive do anúncio do futuro liderada por um primeiro-ministro que acha que magistrados, polícias e jornalistas no país e fora dele conspiram para lhe inventar passados. À semelhança da Apollo 13, Portugal está num não-lugar e num não-tempo em que à sexta-
-feira o povo vê e ouve sobre o passado do primeiro-ministro algo que já não sabe se o deve fazer rir ou chorar. Às quintas é a vez de o primeiro-ministro contrapor com cenários do futuro, venha esse futuro através de leis cada vez feitas mais à pressa ou pelo lançamento virtual de obras cuja factura funciona tipo cartão de crédito a pagar pelos nossos filhos e netos.
José Sócrates tem de facto um problema com o tempo. Desde logo porque tropeça sistematicamente no seu passado. Depois porque, para seu e nosso azar, por causa desse passado vê cada vez mais comprometido o prestígio do cargo que presentemente ocupa. E por fim, mas não menos grave, quando José Sócrates anuncia medidas para o futuro percebe-se que não só não mudou desde esse passado como se constata que não aprendeu nada com o que designa como a sua "cruz" presente: tal como dantes mandava exames por fax e, enquanto ministro, aceitou participar em reuniões que o mais distraído presidente de junta de freguesia sabe que pode comprometer o mais honesto dos cidadãos, endossa agora para as gerações futuras as contas das medidas do seu Governo. Justa ou injustamente acossado pelo passado, o primeiro--ministro está irritado com o presente e pode comprometer o nosso futuro ao deixar-nos com obras onde o seu nome consta na pedra de lançamento e o nosso na lista dos endividadíssimos que, sem saber como, terão de pagar porque algures em 2009 foi preciso inventar futuros.

quinta-feira, 26 de março de 2009

As Personalidades Externas da Universidade e do Politécnico de Coimbra - publicado no Diário de Coimbra, em 26/3/09

No âmbito do novo regime jurídico das instituições de ensino superior (RJIES) a governação das instituições de ensino superior (IES) passaram a ter um novo orgão de governo, com grande influência no desenvolvimento destas organizações – o Conselho Geral (CG). Ao novo orgão, está reservado o poder de eleger e exonerar o Reitor/Presidente e de aprovar planos e relatórios de actividades anuais. Quanto ao poder de controlo e de supervisão não ser muito explícito na lei e por não ter sido, em geral, desenvolvido em sede estatutária, não significa que tal não possa acontecer. Por isso, a tutela, impôs que fossem coptados elementos externos para inibir esta tendência e contribuir para um processo de abertura da governança das iES, contrariando uma realidade de “fechamento” à comunidade. “Diz”, a lei, que estes elementos externos são “Personalidades externas de reconhecido mérito, não pertencentes à instituição, com conhecimentos e experiência relevantes para esta.”
Com este processo a decorrer nas IES públicas de Coimbra, em estado mais avançado na Universidade do que Politécnico, não posso deixar de o abordar e o dar a conhecer à comunidade.
As duas instituições seguiram processos muitos diferentes, usando metodologias opostas. Reflectindo, assim, a “enorme” diferença entre elas. Quer na elaboração dos novos estatutos quer na constituição do Conselho Geral.
A Universidade procurou atenuar as facções, reforçando a integração, a visão de conjunto e respectiva identidade. O Politécnico reforçou as facções, decorrentes do seu modelo de federação de escolas, que se aliam ou guerreiam, diminuindo a identidade (já de si fraca) e a integridade, em clara oposição à racionalização de recursos e à eficácia de processos.
O processo eleitoral para o Conselho Geral da Universidade processou-se por via de listas transversais às faculdades e respectivos departamentos, enquanto o Politécnico usou uma lógica de escola, i.e. cada escola só elegeu os seus representantes. Como resultado, o processo eleitoral na Universidade teve três listas de professores e investigadores, cinco listas de alunos e “gerou” manifestos eleitorais, sites, blogues, debates na rádio e muitas outras acções que dignificaram a instituição e a democracia participativa. No Politécnico, o processo foi residual. Resumindo-se a uns curtos comunicados por email, apelando ao voto de forma pouco democrática rasando o caciquismo e o clientelismo, próprio de uma instituição fechada e virada para si. Tudo isto reforçado pelos “novos” estatutos, que agravaram o não alinhamento organizacional, podendo o Politécnico de Coimbra atingir um estado de ingovernabilidade insustentável.
A escolha das “personalidades externas”, para o Conselho Geral adquiriu, assim, a relevância de um indicador do estado de desenvolvimento das organizações.
A Universidade promoveu uma campanha eleitoral alargada, tendo sido bastante fácil perceber o que as diferentes listas de candidatos pensavam sobre o assunto. Repare-se no que “diz” o manifesto eleitoral da lista E: “A escolha das personalidades externas será um momento crucial no início da actividade do Conselho Geral. A lista assume o compromisso de que os seus membros eleitos tudo farão para ter no Conselho Geral membros externos com a qualidade que a Universidade de Coimbra exige, pessoas de elevado nível e do máximo prestígio e credibilidade pública. As personalidades externas poderão contribuir, pela experiência nas suas áreas de actividade, para a inovação, para o aumento da eficiência organizativa da Universidade, nomeadamente na clareza e rapidez das decisões, e para uma relação mais intensa e proveitosa com o exterior.”
Na Conselho Geral da Universidade foi apresentada uma única lista de personalidades externas, que foi aprovada por unanimidade. No Politécnico, foram apresentadas 21 propostas de personalidades externas, tendo sido eleitas 10. Destas, em minha modesta opinião, nem todas podem ser consideradas externas, de acordo com o conceito que o legislador lhe deu. Será um professor aposentado do Politécnico de Coimbra uma personalidade externa? O que é o “reconhecido mérito”? “conhecimentos”? “experiência”? relevantes para a instituição? .
A difusão na imprensa e o seu impacto revelam, claramente, os resultados.
Além do prestígio granjeado, da capacidade de “lobby” e das excelentes contribuições que irá ganhar, a Universidade de Coimbra acredita nas personalidades que convidou. Repare-se na atitude: “Universidade de Coimbra para não entrar em falência técnica, aposta na capacidade dos elementos externos do Conselho Geral para intervir junto do Governo”, noticiava o Diário de Coimbra no dia 17/3/2009. O prestigio do Presidente do Conselho Geral da Universidade, Artur Santos Silva, e a sua visão distanciada contribuem significativamente para prospectivar o futuro com ambição: "Coimbra deve ambicionar vir a ser uma Oxford ou uma Cambrigde". Trata-se de um perfil exemplar, de um conselheiro externo, que deve reunir as seguintes características: estatuto, reputação, influência e independência.
Por fim, deixo uma nota sobre a natureza deste tipo de orgãos em países onde estão estabelecidos há muito tempo e onde adquiriram uma estabilidade funcional de controlo e supervisão, sem intervenção executiva: Não é normal que um membro de um Conselho Geral considere a sua candidatura a Reitor/Presidente, embora nada o impeça formalmente.