quarta-feira, 23 de abril de 2008

CRESÇA CONNOSCO (Diário de Coimbra, 23/4/2008)

Procuram-se “jovens recém-formados com ambição e grande sentido empreendedor” é como começa muitos anúncios de oferta de emprego (talvez trabalho seja mais adequado). Os empregadores querem que “estes” jovens “saibam enfrentar dificuldades”; “que sejam persistentes”; “que saibam automotivar-se”; “que tenham curiosidade”; “que saibam e queiram aprender”; “que gostem de ler”; “que tenham vontade e capacidade de inovar”; “que saibam vender”.
E o que oferecem os empregadores a “estes” jovens?
“Um ambiente profissional competitivo”; “uma equipa bem preparada”; “objectivos ambiciosos”; “um ritmo de trabalho elevado”; “um estímulo à aprendizagem e à valorização permanente”; “uma avaliação exigente que selecciona e reconhece os melhores”.
E ainda acrescentam: “Será dada preferência a candidatos que tenham trabalhado durante o curso, que tenham vivido noutros países e que tenham praticado actividades desportivas, artísticas ou quaisquer outras que exijam perseverança, disciplina e força de vontade”.
Exigente e selectivo? Naturalmente. Mas, não devia ser este um perfil normal, que não fosse preciso explicitar em anuncio de página inteira?
Será preciso enfatizar dotes como a perseverança, a disciplina e a força de vontade ?.
Quando os empregadores chegam a tal ponto ...
Será a Escola culpada?
Hoje, ao nosso processo educativo não deixa de estar “ligado” um sentimento de pouco exigência, de facilitismo, onde o 10 é quanto basta. As novas oportunidades; os “maiores de 23”; as “equivalências” administrativas para licenciatura ou acesso a mestrados no contexto de Bolonha têm contribuído para este sentimento. Felizmente, temos muitos exemplos que contrariam este sentimento, apesar de muitos afirmarem que já está instituído, ie tornou-se “cultura”, com fundamentos no “eduquês” e nos duros dados da OCDE.
Será a Família culpada? ou a televisão? ou, porque não, a Internet? ou, lá vamos nós, o telemóvel?
Por isso, muitas empresas desenvolvem campanhas de oferta de trabalho, para recém-formados, que, propositadamente, intitulam de “Cresça Connosco”.
Não devia de ser “Continue a Crescer Connosco”, sinal que, pelo menos, a Escola, a Família e a Comunidade tinham estado de “mãos dadas”?

2 comentários:

Alexandre Sousa disse...

Olá João, boa tarde;

Há uns largos anos o meu padrinho tinha uma fábrica. Chamou um consultor da estranja, fechou contrato e espaço exclusivo para gerar análises e relatórios.
Ao final do dia, não resistimos; fomos espiar o que ele havia escrito.
«Não ficará pedra sobre pedra!»

NP disse...

Li este artigo no Diário de Coimbra. Ousei digitalizá-lo e postá-lo no meu blogue, referindo, obviamente, a fonte e o autor.
Se achar que é abusivo e quiser que eu o elimine, faça o favor de mo comunicar. :)

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